Fotografias sem registo de gentes

Posted on 10/05/2008 by UNITED PHOTO PRESS

Devido à sua multifuncionalidade, a fotografia é, com toda a probabilidade, uma das formas de representação visual mais complexa. Afinal, do que falamos quando falamos de fotografia? O que nos faz distinguir um retrato de Thomas Ruff daquele obtido numa loja comercial? Como é possível definir esta disciplina, que abarca suportes que vão do daguerreótipo, até à fotografia digital? Walter Benjamin diz-nos que "A necessidade de trazer as coisas para mais «próximo», espacial e humanamente, é quase uma obsessão hoje em dia, tal como a tendência para negar o carácter único ou efémero de um dado acontecimento reproduzindo-o fotograficamente. Há uma compulsão cada vez mais intensa para reproduzir o objecto fotograficamente, em grande plano...".

Esta afirmação de Benjamin, proferida nos finais da década de 1930, adquire hoje uma maior actualidade com o advento e popularização da captação digital, em que se observa uma voracidade de registo do acontecimento através da fotografia. O acto de fotografar tornou-se tão banal como o de respirar. Porém, num mundo cada vez mais saturado de imagens, atrevemo-nos a afirmar que a iletracia visual é cada vez maior. Tal como recentemente Cláudia Giannetti proferiu numa conferência "o nosso olho ignora cada vez mais a carne do mundo. Vê grafismos em vez de ler imagens".

O dilúvio de imagens que paira hoje sobre o nosso quotidiano (imprensa, publicidade e outras), acaba por nos cegar. No domínio das artes visuais, a fotografia impõe-se cada vez mais como forma de suporte, mas assistimos a uma forte tendência (modismo?) para o registo de lugares e uma quase ausência do registo de gentes. A fotografia é memória e não podemos aceitar que a memória do tempo presente, simplesmente não exista.

PARCERIA INTERNACIONAL DA UNITED PHOTO PRESS