World Press Photo 2011 winners
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Winners of the World Press Photo contest, which recognizes excellence in photography, were released Friday. The winners were selected from more than 100,000 ...
Retratos e Objectos
Posted on 10/05/2008 by UNITED PHOTO PRESS
'Retratos e Objectos', de Carmen Calvo, reúne 60 obras que podem ser vistas até 24 de Novembro na Galeria Art Lounge. A artista destrói o privado para o expor, construindo ficções dentro dos seus quadros como se estivesse a elaborar um caderno de artista ou a escrever um poema. Não há idealismo beatífico nesta arte, mas sim inquietação, melancolia, riso e ironiaExposição fica até 24 de Novembro na Art Lounge, em LisboaHá uma tentativa de ordenação do caos na obra de Carmen Calvo que se liga a uma experiência autêntica de vida. Como se no princípio houvesse o pânico e, por instinto de sobrevivência, fosse necessário ordenar. A arte desta valenciana, tão melancólica quanto alegre, enraíza-se na memória - a sua e a dos outros - de um espaço interior versus exterior. Retratos e Objectos, patente na Galeria Art Lounge até 24 de Novembro, talvez possa definir-se como um guarda-jóias, um diário ficcional ou um caderno de artista. Tão terrível quanto doce. Carmen Calvo colecciona e reconstrói a tradição artística (Picabia, Juan Gris, Marcel Duchamp, um dos precursores da arte conceptual e introdutor da ideia do ready-made, a fotografia inicial ou o cinema). Vemo-la transformar, manipular, retratar a partir do fragmentário, do desperdício, do objecto de antiquário. É um corta e cola, desmembramento recriado a partir do real que não metaforiza o impossível de suportar numa ficção.O sentido de uma proliferação de sentidos na sua obra existe em estado de subversão. E gira muito em torno do universo feminino. Como Diana, a caçadora (Ártemis na terminologia grega), que transformou Actéon num veado, é multifacetada e a metamorfose está no centro do seu trabalho. Nele integram-se diversos materiais - ouro, cristais, cordas, agulhas, pregos, bonecas, cabelo, cartas - e técnicas artísticas como a fotografia, o desenho, a pintura e a variedade de acessórios. "Não deixa de ser uma narração. O que me interessa é contar histórias, gerar personagens, imaginar-lhes uma vida, recriar momentos em que se relembre um casamento, uma infância amputada (como a do menino espetado por agulhas), amores e desamores ou a sombra da morte", diz.
Primeiro, Carmen cria e depois coloca o título que fecha o quadro. Muitas vezes, trabalha, como nesta exposição - que conta com a curadoria de Ricardo Tenreiro Da Cruz e a coordenação e assessoria de Hugo Lapa -, textos poéticos: de Pessoa, Rimbaud ou Brines. Leiam-se os títulos dos quadros. São excertos do Livro do Desassossego, acrescentos de densidade e de ironia.A criação de Carmine Calvo é como uma matrioska, série de bonecas colocadas umas dentro das outras, da maior (exterior) até à menor (a única que não é oca). Dir-se-ia, portanto, uma arte do mínimo, mesmo quando utiliza grandes formatos."São histórias dentro de histórias não alheadas do real, social, político. No quadro dos militares em que uso fotografia em negativo surge uma criança . Aí, procuro sublinhar o contraste entre a Polícia, o Poder, a solenidade, e a fragilidade da menina. Tão trágico como misterioso!", conta.A série, constituída pelos quadros En el fondo es lo mismo, Betty Boo, Me sentí mosca cuando supese que lo sentí e Se mira pero no se ve, de 2007, é exemplificativa da ideia de máscara, metamorfose e da ironização dos diversos códigos sexuais. Há algo de Buñuel na arte de Carmen Calvo, ela mesma o salienta, confessando admirar Truffaut ou Godard, o cinema de terror ou fantástico.
"Tudo interage no domínio da arte. Se pensarmos em A Janela Indiscreta, de Hitchcok, e o ligarmos ao quadro de Hopper, torna-se evidente que enquanto um se move de dentro para fora (o filme), o outro (a tela) fá-lo de fora para dentro. Tudo na minha obra tem a ver com a visão, o olhar, o desejo e a dúvida. Eu sei que crio algum desconcerto."Consciente/inconsciente, presença/ausência atravessam esta obra que usa formas como o poeta escreve palavras. E não será a mesma coisa? A artista desloca, descola, inventa associações inéditas, repete, inverte até ao fascínio. O encontro com as suas obras faz-se a partir do desvio, do sorriso e do susto que transportam melancolia dentro de si. "A arte tem de dizer coisas. O quadro, em que a folha de ouro (remetendo para o Barroco) contrasta com um pequeno barco, usa um objecto pobre e um material rico. Estou, em Panteros (2007), a falar da emigração: muitos morrem na viagem", explica Carmen Calvo. "No caso do desenho Para darie rellieve a mis sueños (2005) uma menina dança enquanto mil olhos a observam." Mil olhos opressores? O olho cosmológico? O escaravelho, símbolo solar, usado em mais do que um quadro, revela que não há sombra sem luz.